terça-feira, 8 de agosto de 2017

Raoul Ruiz – “O Tempo Reencontrado” / “Le Temps Retrouvé”



Raoul Ruiz – “O Tempo Reencontrado” / “Le Temps Retrouvé”
(França/Itália/Portugal – 1999) – (169 min. / Cor)
Catherine Deneuve, Emmanuelle Béart, Vincent Perez, John Malkovich, Pascal Gregory, Marie-France Pisier, Chiara Mastroianni, Marcello Mazzarella.


Um dos grandes sonhos de Luchino Visconti foi, sempre, a passagem ao grande écran da obra de Marcel Proust “Em Busca do Tempo Perdido”, projecto esse que nunca encontrou financiamento junto dos produtores, apesar dos esforços levados a efeito pelo cineasta ao longo da vida.
Nunca é demais recordar que Marcel Proust nos ofereceu uma das mais belas obras da Literatura Mundial, onde a memória nos surge como personagem. Proust dedicou a sua vida a escrever esta obra, que sempre se considerou ser impossível passar ao cinema, no entanto alguns dos livros que constituem esta obra extensa e soberba, composta por sete volumes, viram a luz do dia no écran.


O cineasta alemão Volker Schlondorff, um dos expoentes do denominado “Novo Cinema Alemão” irá adaptar ao cinema o segundo capítulo do primeiro volume de “Em Busca do Tempo Perdido”, “Un amour de Swann”, tendo Jeremy Irons e Ornella Mutti nos protagonistas, vestindo de forma soberba as personagens de Swann e Odette, construindo uma película repleta de amor e fascínio, pela obra do escritor francês.
Aliás será sempre de referir que um outro cineasta alemão, da mesma geração, Percy Adlon, também abordou o universo de Marcel Proust, na película “Celeste”, partindo do livro escrito pela criada de Marcel Proust, Celeste Albaret, que acompanhou o escritor nos seus últimos anos de vida e que demonstrou sempre uma enorme afeição e respeito pelo escritor. O filme mostra-nos Proust nos seus últimos anos de vida, lutando contra a asma, que sempre o atormentou desde tenra idade, ao mesmo tempo que vai escrevendo a obra no seu quarto forrado a cortiça, deitado na cama em busca da perfeição absoluta. A interpretação de Eva Mattes é na verdade sublime.


Já a cineasta belga Chantal Akerman irá transpor para o cinema um outro volume da obra, intitulado “A Prisioneira”, numa adaptação bastante livre, ao passar a acção do livro para os dias de hoje.
E, quando menos se esperava, o cineasta chileno Raoul Ruiz, que viveu exilado em França durante grande parte da sua vida, (faleceu em 2011) decidiu adaptar ao cinema o último volume da obra intitulado “O Tempo Redescoberto” / “LeTemps Retrouvé”, convocando para o efeito a “nata” dos actores do cinema francês, bem como John Malkovich para interpretar o célebre Barão de Charlus, ao mesmo tempo que encontrava no actor Marcello Mazzarella um perfeito “icon” de Marcel Proust, devido à semelhança física do actor com o escritor. Catherine Deneuve interpreta Odette e Emmanuelle Béart será Gilberte.



Ao contrário do que seria de esperar por parte do cineasta chileno, não iremos encontrar um filme que se filie na sua obra cinematográfica onde o surrealismo é bem patente, mas sim uma adaptação rigorosa do universo do célebre escritor francês, oferecido de forma perfeita e onde as memórias de criança de Marcel Proust vão surgindo ao longo do tempo, veja-se aliás como nos são oferecidos os célebres verões passados em Balbec, com Proust (Marcello Mazzarella) a passear ao longo da praia, recordando os seus tempos de criança.


Estamos assim perante uma película onde a memória nos surge personificada de forma perfeita, oferecendo-nos uma maravilhosa viagem pelo universo de “Em Busca do Tempo Perdido”. Mas, como não há bela sem senão, apenas a sequência do concerto, na residência dos Duques de Guermantes, onde encontramos as principais personagens do romance, se apresenta demasiado extensa no interior do filme.
No entanto “Le Temps Retrouvé” de Raoul Ruiz, que obteve um enorme sucesso em França, como não podia deixar de ser, oferece-nos momentos verdadeiramente mágicos do universo Proustiano, convidando o espectador a mergulhar na (re)leitura de uma das obras mais belas e fundamentais da Literatura Mundial.

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