segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Cinema Stadium


Gostava de ter uma capacidade de memória como a do jovem cá de casa, mas não é assim. Acho, aliás, que “colecciono” fotos e papel por ter essa “falha”.
Mas vou fazer um esforço para me lembrar e poder falar dos três cinemas que mais marcaram a minha vida, especialmente por serem os que estavam mais perto de casa e de mais fácil acesso.
Comecemos pelo Cinema Stadium, parte integrante do edifício do Sport Algés e Dafundo, em Algés. Foi inaugurado nos anos 30, sendo o edifício da autoria do arquitecto Raúl Tojal.


Sei que foi o cinema que os meus pais mais frequentaram até eu nascer, já que a partir dessa altura os serões cinéfilos foram abandonados, porque eu não ficava com os meus avós nem por nada.
Lá viram “Os Canhões de Navarone” / “The Guns of Navarone” de J. Lee Thompson e para sempre lhes ficou na memória. Tal era o gosto que, muitos anos depois, quando lhes ofereci o filme em VHS, viram-no de imediato (embora não deixassem de referir nessa altura que numa sala de cinema é que era!)


Junto mais duas memórias deles: uma matiné em que foram ver “O Rei das Berlengas”, de e com o Artur Semedo, o Mário Viegas e até o Astérix e o Obélix e saíram de lá um bocadinho desencantados J! Achavam que iriam ver um filme português tipo as comédias dos anos 30 e 40 (as do Vasco Santana e António Silva) e afinal não tinha nada a ver.
Claro que esta sala de cinema também está ligada às minhas memórias através dos meus pais, devido ao célebre filme de Bernardo Bertolucci  “O Último Tango em Paris” / “Last Tango in Paris”, contando a minha mãe que na fila à frente uma senhora, bastante mais idosa, passou parte do filme com “oh!”’ e “ah!”’ e um baixinho “olha para aquilo”.


Da minha memória, se bem que devem ter sido bastantes os filmes lá vistos, consta a película da Disney “Se a Minha Cama Voasse” / “Bedknobs and Broomsticks” de Robert Stevenson. Talvez por ter sido a primeira vez que fui ao cinema à noite! Durante algum tempo, após ter visto o filme, não resisti a tentar rodar as maçanetas das camas, sempre com uma secreta esperança, que ela voasse.


Nos anos mais recentes, outras foram as funções desta sala. Por lá vi Teatro e Concerto de Música Clássica, numa semana de homenagem ao Zeca Afonso, respectivamente “O Diabinho da Mão Furada”, do António José da Silva, pela Barraca, sendo o Concerto de Piano, com o Maestro António Vitorino de Almeida. E até serviu para local de voto em Algés, durante as eleições, bem como sala de ensaios de uma banda. A última vez que por lá passei estava com um ar de total abandono!

Paula Nunes Lima

Michel Sima - "Man Ray (e Kiki de Montparnasse)"


Michel Sima, 1954
Man Ray em frente de uma fotografia de Kiki de Montparnasse,
 de sua autoria e datada de 1930: o artista e a sua mais célebre musa!

Dollar Brand - “Ancient Africa”


Dollar Brand
“Ancient Africa”
JAPO Records

Dollar Brand – Piano, Flute.

A – Medley – 23:05

1 – Bra Joe From Kilimanjaro
2 – Mamma
3 – Tokai
4 – Llanga
5 – Cherry
6 – African Sun

B – Medley – 21:55

1 – African Sun (continued)
2 – Tintinyana
3 – Xaba
4 – Peace . Salaam
5 – Air*

Duração: 45:00
Ano: 1974
Edição: LP


Durante as décadas de 60/70 foram muitos os músicos afro-americanos que decidiram fixar residência na Europa, graças às condiçoes exclentes de gravaçao que lhes eram proporcionadas, assim como ao boom que o jazz conheceu nesses anos no velho continente e "Dollar Brand" foi precisamente um deles. Esta fabuloso registo ao vivo do pianista sul-africano é na verdade memorável. Gravado ao vivo em Junho de 1972 no Jazz-Hus Montmartre, Copenhagen, por Lars Vester Petersen. Misturas de Mantra Sound, Copenhagen. Fotografia de The Bitzer. Design de B & B Wojirsch. Todas as composições são da autoria de Dollar Brand.

Steve Kuhn - “Non-Fiction”



Steve Kuhn
“Non-Fiction”
ECM Records

Steve Kuhn – Piano, Percussion.
Steve Slagle – Alto Saxophone, Soprano Saxophone, Flute, Percussion.
Harvie Swartz – Bass.
Bob Moses – Drums.

1 – Firewalk (Harvie Swartz) – 8:00
2 – Random Thoughts (Steve Kuhn) – 8:08
3 – A Dance With The Wind (Harvie Swartz) – 5:48
4 – The Fruit Fly (Steve Kuhn) – 5:54
5 – Alias Dash Grapey (Steve Kuhn) – 11:57

Duração: 39:47
Ano:1978
Edição: LP/K7

O pianista norte-americano Steve Kuhn demonstra mais uma vez neste belo "Non-Fiction" todo o seu saber ao liderar o seu quarteto rumo a mais um inesquecível trabalho discográfico, onde o talento e a criatividade andam de mãos dadas. Gravado em Abril de 1978, no Tonstudio Bauer, Ludwigsburg. Layout de Barbara Wojirsch. Cover Fotografia da capa do álbum de Klaus Frahm. Fotografia de Deborah Feringold. Producão de Manfred Eicher.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Chiado Terrasse


Na Rua António Maria Cardoso existiram, em tempos idos, duas salas de cinema, o São Luíz (que foi ontem aqui visitado) e o Chiado Terrasse, que guardo na memória com imenso carinho, porque foi nele que entrei pela primeira vez numa cabine de projecção, graças à gentileza do Sr. Raul, pessoa conhecida da minha avó e que me mostrou, com enorme carinho e satisfação, como tudo funcionava, para meu grande fascínio, nessa idade mágica dos oito anos.


Mas voltemos um pouco atrás para sabermos como nasceu este belo cinema de bairro. Os proprietários do Chiado Terrasse, quando decidiram a sua construção, tinham em mente um espaço dedicado ao célebre Animatógrafo, que na época, 1908, começava a fazer as delícias dos habitantes da capital e curiosamente muitos chamavam-lhe “Animatógrafo falado”, porque alguns profissionais do teatro colocavam-se por detrás do palco e davam fala às personagens quando surgiam os célebres intertítulos, mas nem só o cinema viveu no Chiado Terrasse, porque também o denominado Teatro de Revista teve ali lugar, como alguns saraus musicais.


Nos anos 30, do século passado, foi remodelado, recorde-se que tinha um jardim interior com esplanada que posteriormente iria ar lugar à sala que eu conheci na segunda metade dos anos sessenta e onde vi as célebres “cowboiadas”, com Zorros e Ringos, o meu amigo Tarzan, mas também às comédias de duas duplas famosas na época e que faziam as minhas delícias: Abbott e Costelo, em particular o filme “A Galinha dos Ovos de Ouro” / “Jack and the Beanstalk”, que me faziam rir imenso, cujos filmes eram a preto e branco e essa outra dupla, por vezes já a cores, constituída por Jerry Lewis e Dean Martin, sendo um dos meus favoritos a película “O Rei do Laço” / “Pardners”..


Mas se nas comédias a minha idade de um digito terrestre não era problema, já nos “westerns” a presença da minha avó facilitava a entrada nos filmes para 12 anos ao miúdo alto, que tinha ainda a idade de um digito, até que chegou essa sessão da noite em que passava o “Ulisses” com Kirk Douglas, Silvana Mangano e Anthony Quinn, realizado pelo cineasta italiano Mario Camerini e com produção de uma dupla de peso constituída por Carlo Ponti e Dino de Laurentis e nessa noite foi-me impedida a entrada, porque era bem visível para o senhor da portaria que eu não tinha idade para ver o filme.


Mas com quem ele não contava, nem eu, que fiquei bastante enfiado, foi com a minha mãe, que decide apresentar os seus argumentos sobre a minha idade, chegando a ameaçar que ía buscar o meu BI a casa para lhe mostrar. Tínhamos então o senhor zeloso, o polícia, o bombeiro que entretanto chegara e aquela “polícia nada simpática”, que andava de gabardine, chapéu e lia o jornal “A Época”, do outro lado da rua. Já me estava a ver atrás das grades como nos filmes, e só ao fim de quase vinte minutos de troca de argumentos entre a minha mãe e o senhor zeloso, me deixaram entrar e quando me sentei já o célebre “Ulisses” rodava a alta velocidade, ou seja tinha perdido cerca de 18 minutos de filme, algo que descobri meio-século depois, precisamente no dia em que estou a escrever esta crónica, após ter visto o filme no pequeno écran, em cópia restaurada, no Canal ARTE e valeu a pena, porque a película é fabulosa e as cores são verdadeiros frescos.


O Chiado Terrasse encerrou portas no início dos anos setenta, (30/06/1971), mas recordo muito bem da última sessão dupla que por lá vi, porque foram dois filmes que me marcaram. O primeiro foi o famoso “Por Quem os Sinos Dobram” / “From Whom The Bells Tolls”, realizado pelo Sam Wood, com a Ingrid Bergman (Linda!) e o Gary Cooper, baseado no célebre livro do Hemingway, que eu ainda não sabia que se iria tronar um dos meus escritores de cabeceira, outro filme que revi recentemente, também no Canal Arte.


Já a outra película, intitulada “O Cântico da Carne” / “The Miracle”, datada de 1959, tinha a particularidade de ter como protagonista Roger Moore, que eu “conhecia muito bem” da televisão, mas nunca tinha visto no grande écran e cuja acção se desenrolava em Espanha durante as invasões Napoleónicas, contando ainda com a presença da bela Carroll Baker e tendo a particularidade de ter tido dois realizadores: Irving Rapper e Gordon Douglas.

Mas se me perguntarem de que me recordo mais nas minhas memórias da sala do Chiado Terrasse, terei que confessar que é da alegria das sessões para os mais pequenos no período do Carnaval, a famosa cabine de projecção e claro a Ingrid Bergman, linda, de cabelo curtinhoJ!

Man Ray - "Bertolt Brecht"


Man Ray - "Bertolt Brecht".

Mal Waldron - “The Call”


Mal Waldron
“The Call”
JAPO Records

Mal Waldron – Electric Piano.
Jimmy Jackson – Organ.
Eberhard Weber – Electric Bass.
Fred Braceful – Drums.

1 – The Call – 18:53
2 – Thoughts – 21:50

Duração: 40:43
Ano: 1971
Edição: LP


Em 1967, Manfred Scheffner iniciou a venda de álbuns de jazz por correio, que designou de “Jazz by Post” (JAPO), numa loja de electrodomésticos em Munique, criando dois anos mais tarde, em 1969, uma discoteca que se dedicava exclusivamente à comercialização de álbuns de jazz, que se iria tornar numa referência no universo do Jazz Europeu e que mais tarde se irá lançar na produção discográfica.
Os LPs da JAPO Records foram produzidos por Thomas Stowsand, Steve Lake e Manfred Eicher e por vezes até pelos próprios músicos e publicados e comercializados pela ECM Records. Recorde-se que JAPO é a abreviatura encontrada para a designação “Jazz by Post” criada pelos seus fundadores.
Em 1989 a JAPO Records encerrou a sua actividade discográfica tendo, até esse momento, originado 41 álbuns incontornáveis e a ECM Records ficou detentora desta etiqueta discográfica e posteriormente iniciou a reedição de diversos álbuns do catálogo da JAPO Records  na ECM Records.
O primeiro álbum editado foi o trabalho discográfico de Mal Waldron, intitulado “The Call”, recorde-se que o primeiro álbum a ver a luz do dia com o selo ECM Records foi também assinado por Mal Waldron, numa formação em trio de jazz. “The Call” foi gravado a 1 de Fevereiro de 1971 no Tonstudio Bauer, Ludwigsburg, por Kurt Rapp. Design de B & B Wojirsch. Produção de Manfred Eicher.

New Music For Guitar From ECM – (Compilation / Colectânea) – ECM Records



New Music For Guitar From ECM
(Compilation / Colectânea)
ECM Records

1 – Ralph Towner – “Nimbus” – 6:25 – ECM 1060
2 – Bill Connors – “Song For a Crown” – 4:12 – ECM 1057
3 – John Abercrombie – “Sorcery” – ECM 1061
4 – John Abercrombie – “Back Woods Song” – 8:12 – ECM 1061
5 – Ralph Towner – “Piscean Dance” – 4:12 – ECM 1060
6 – Bill Connors – “Theme To The Guardian” – 5:15 – ECM 1057
7 – Ralph Towner – “Winter Solstice” – 3:58 – ECM 1060

Duração: 40:03
Ano: 1975
Edição: LP 

Uma das mais-valias musicais do catálogo da ECM Records é, precisamente, a enorme qualidade dos seus guitarristas e como não podia deixar de ser, a editora de Munique distribuiu no continente norte-americano, pelas Estações de Rádio norte-americanas, no ano de 1975, este álbum intitulado “New Guitar Music From ECM”. Pela sua importância e raridade decidimos deixar aqui o seu registo, sendo um dos alvos preferidos dos coleccionadores.
O álbum “New Music For Guitar From ECM”, teve produção de Manfred Eicher, sendo os temas oriundos dos seguintes trabalhos discográficos:

- ECM 1057 – Bill Connors – “Theme To The Guardian”
- ECM 1060 – Ralph Towner – “Solstice”
- ECM 1061 – John Abercrombie – “Gateway”

Marion Brown - "Afternoon of a Georgia Faun"


Marion Brown
"Afternoon of a Georgia Faun"
ECM Records

Marion Brown - Alto Saxophone, Zomari, Percussion.
Anthony Braxton - Alto and Soprano Saxophones, Clarinet, Contrabass Clarinet, Chinese Musette, Flute, Percussion.
Chick Corea - Piano, Bells, Gong, Percussion.
Bennie Maupin - Tenor Saxophione, Flute, Bass Clarinet, Idiophone, Bells, Percussion.
Andrew Cyrille - Percussion.
Jeanne Lee - Voice, Percussion.
Jack Gregg - Bass, Percussion.
Gayle Palmoré - Voice, Piano, Percussion.
William Green - Top o'lin, Percussion.
Billy Malone - African Drum.
Larry Curtis - Percussion.

1 - Afternoon of a Georgia Faun - 17:01
2 - Djinji's Corner - 18:03

Duração: 35:04
Ano: 1971
Edição: LP/CD

A História da Música está repleta de obras-primas esquecidas no tempo e neste século XXI, que cultiva com tanta intensidade a perda da memória, a situação tornou-se ainda mais grave. Talvez por isso mesmo, nunca será demais referir a genialidade incontornável deste álbum assinado pelo saxofonista Marion Brown e intitulado "Afternoon of a Georgia Faun". Foi em 1970 que este belo disco de vinil viu a luz do dia, estando já disponível em cd. O elenco é de luxo e após escutarem irão perceber que nunca ouviram algo assim e se lhe tentarmos encontrar um "parente", nesta década de setenta, que para alguns nunca existiu, só poderá ser o álbum "Survivors Suite" de Keith Jarrett. 
Gravado a 10 de Agosto de 1970 no Sound Ideas Studio, New York City por George Klabin e produzido por Manfred Eicher.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Cinema São Luíz


A primeira vez que entrei no Cinema São Luíz, situado na Rua António Maria Cardoso em Lisboa, tinha a idade de um dígito terrestre e o meu filme de estreia nesta bela sala de cinema foi o famoso “Bambi”, de Walt Disney, tendo desde logo ficado cativado por esse pequeno coelho chamado Tambor.

Adorei a sala de espectáculos e só muitos anos depois descobri a história deste local que, em 22 de Maio de 1894, viu nascer o Teatro Dona Amélia, estávamos ainda na Monarquia, sendo o responsável pela obra o Arquitecto Louis Reynaud, depois a Monarquia caiu e sabiamente o proprietário do teatro, homem avisado, “nesta coisa da mudança dos ventos”, rebaptizou o espaço de Teatro da República, mas quatro anos depois um incêndio destruiu por completo o edifício e só passados dois anos, a 16 de Janeiro de 1916, a sala renasceu, dentro dos condicionantes da época.


Alguns anos depois e já com a República bem consolidada, chegou a vez de a Sétima Arte se implantar no território nacional, cativando o público dos mais diversos extractos sociais e assim o espaço do teatro foi adaptado para receber o Cinema e ser novamente rebaptizado, desta feita de São Luís Cine e o sucesso ultrapassou todas as expectativas, tornando-se a primeira sala a ter instalação para os filmes sonoros, recorde-se que durante alguns anos o cinema mudo e o cinema sonoro conviveram nas salas de espectáculos, até que o segundo se impôs definitivamente e seria precisamente na segunda metade da década de sessenta que eu iria descobrir o São Luíz, vendo por ali, na companhia da minha mãe e avó, os mais diversos géneros cinematográficos tendo-me iniciado com o “Bambi”, como já referi.


Mas uma película de que guardo boas e más memórias desta magnifica sala de cinema é precisamente outro filme da Disney, “Se o Meu Carro Falasse” / “The Love Bug” de Robert Stevenson, em que o herói era um carocha igual ao da minha mãe, só com a diferença que este andava bem mais depressa, mas por outro lado portava-se muito mal, mas se entrei bastante molhado na sala devido à chuva que fazia, quando saímos estava uma verdadeira tempestade e na correria para entrar no carro decidi antecipar-me à abertura da porta, tendo mergulhado no charcoJ!


De todos os musicais que vi no Cinema São Luíz, o que me ficou para sempre na memória foi o “Sete Noivas Para Sete Irmãos” / “Seven Brides For Seven Brothers” de Stanley Donen, tendo ficado fascinando pelas coreografias desse génio do bailado chamado Michael Kidd, na época fixei para sempre a sequência da construção da casa.


Já no que diz respeito aos “westerns” e foram muitos, tinha já um herói no actor John Wayne e embora ainda não lhe fixasse o nome conhecia-lhe o rosto e quando o vi na película de Henry Hathaway “A Velha Raposa” / “True Grit”, hoje em dia célebre devido ao “remake” dos irmãos Coen, fiquei muito preocupado por o actor principal ter perdido uma das vistas e usar uma pala igual à de um tal general, que tinha visto na televisão e tinha um filho que era actor de cinemaJ!


Depois vieram os anos da cinéfilia e o São Luíz foi uma das primeiras vítimas das salas Estúdio que começavam a proliferar pela capital na década de setenta, do século passado, começando a sua sala a ser usada para a passagem de ciclos de cinema de diversas Associações como a “Ver Filme” do José-Camacho Costa e Cine-Clubes  e foi assim que descobri nessa bela sala, numa noite de Verão, o “M-Matou” / “M” de Fritz Lang, com um Peter Lorre sublime, tendo já perdido a conta às vezes que revi este filme numa sala de cinema ao longo dos anos.


Outro momento cinéfilo que guardo com muito carinho na sala do Cinema São Luíz foi a descoberta desse grandioso filme barroco de Max Olphuls, “Lola Montès”, que foi exibido numa versão restaurada e que me deixou fascinado em todos os aspectos: argumento, realização, fotografia, interpretação e uma inesquecível Martine Carol, que infelizmente nos deixou cedo demais.


Por fim, se me perguntarem qual foi o último filme que vi na sala do Cinema São Luíz a resposta é fácil, porque nunca mais me esqueci de “Les Trois Couronnes du Martelot” do chileno Raoul Ruiz, cuja rodagem se processou em Portugal (Continente e ilha da Madeira) e tinha como uma das intérpretes a Lisa Lyon, um dos mais célebres modelos de Helmut Newton, muito em voga nesses anos oitenta e com presença regular nas páginas da revista Photo.

Depois o São Luíz voltou a ser sala de Teatro e de Concertos, aberto também a encontros de Poesia e Literatura, gerido pelo Município, mas o Cinema, essa maravilhosa Arte, já com mais de um século de existência, ausentou-se do seu espaço para sempre.

Man Ray - "James Joyce"


Man Ray - "James Joyce", 1922.

Magog - “Magog”


Magog
“Magog”
JAPO Records

Peter Frei – Bass.
Peter Schmilin – Drums, Percussion.
Klaus Koenig – Piano, Electric Piano.
Andy Scherrer – Soprano Saxophone, Tenor Saxophone, Flute, Percussion.
Paul Haag – Trombone, Percussion.
Hans Kennel – Trumpet, Fluegelhorn, Percussion.

1 – Lock (Paul Haag) - 4:17
2 – Gogam (Andy Scherrer) – 8:12
3 – Rhoades (Klaus Koenig) – 7:10
4 – Der Bachstelzer (Klaus Koenig) – 6:18
5 – Summervogel (Hans Kennel) – 7:32
6 – New Samba (Hans Kennel) – 8:28

Duração: 41:57
Ano: 1976
Edição: LP/CD


Um documento bem precioso do jazz, oriundo desse pequeno país que é a Suiça, é este "Magog", que nos oferece um registo histórico de como o jazz na Europa se desenvolvia em relação ao praticado na América, tendo até quem na época denominasse a música criado pelos Magog como "New Alpine Music". Este registo discográfico revela-se um excelente exemplo da música que era então praticada nesses longínquos e geniais anos setenta, do século passado, que muitos decidiram esquecer ou melhor dizerem que nunca existiu. Gravado nos dias 1 e 2 de Novembro de 1974 no Tonstudio Bauer, Ludwigsburg por Carlos Albrecht e Martin Wieland. Fotografia de Michael Wirth. Design de Dieter Bonhorst. Produção da Soletron Productions S.A.O álbum “Magog” da banda de jazz Magog foi reeditado em cd, em 2012, pela etiqueta Suiça TCB Records, fundada pelo músico Peter Schmidlin, membro fundador dos Magog e que aqui toca bateria e percussão.

Duets / Colaborations - (Compilation / Colectânea - ECM Records)


Duets / Colaborations - (Compilation / Colectânea)
ECM Records

1 – Ralph Towner/Gary Burton – “Matchbook” – 4:30 – (ECM 1056)
2 – Art Lande/Jan Garbarek – “Meanwhile” – 4:17 – (ECM 1038)
3 – Gary Burton/Chick Corea – “Falling Grace” – 2:37 – (ECM 1024)
4 – Gary Burton/Steve Swallow – “Chelsea Bells (For Hern) - 4:21 – (ECM 1055)
5 – Keith Jarrett/Jack DeJohnette – “Sounds of Peru / Submergence / Awakening” – 6:28 – (ECM 1021)
6 – Art Lande/Jan Garbarek – “Quintennaissence” – 5:35 – (ECM 1038)
7 – Gary Burton/Steve Swallow – “Sweet Henry” – 3:59 – (ECM 1055)
8 – Art Lande/Jan Garbarek – “Waltz For H” – 4:43 – (ECM 1038)
9 – Gary Burton/Chick Corea – “Desert Air” – 6:23 – (ECM 1024)
10 – Ralph Towner/Gary Burton – “Icarus” – 5:50 – (ECM 1056)

Duração: 48:43
Ano: 1975
Edição: LP

Um dos segredos do sucesso da ECM Records, quando surgiu no Mercado discográfico, foi precisamente os seus álbuns de duetos, produzidos por Manfred Eicher e no ano de 1975 foi fabricado e distribuído nos EUA este álbum promocional, intitulado “Duets/Colaborations”, destinado às Estações de Rádio norte-americanas. Pela sua importância e raridade nos dias de hoje e sendo alvo de muitos coleccionadores, aqui deixamos o seu registo.

The Music Improvisation Company - "The Music Improvisation Company"


The Music Improvisation Company
"The Music Improvisation Company"
ECM Records

Derek Bailey - Electric Guitar
Hugh Davies - Electronic (Live)
Jamie Muir - Percussion
Evan Parker - Soprano Saxophone
Christine Jeffrey - Voice


1 – Third Stream Boogaloo - 2:36
2 - Dragon Path - 10:23
3 - Packaged Eel - 8:42
4 - Untitled No. I - 7,05
5 - Untitled No. II - 7,32
6 - Tuck - 3:04
7 - Wolfgang Van Gangbang - 7:95


Duração: 46:04
Ano: 1970
Edição: LP/CD


Este álbum, cuja única edição em cd que conhecemos é de origem japonesa, revela-se uma preciosidade e um disco histórico do jazz de avant-garde ou da música improvisada, se preferirem este termo e nele encontramos nomes bem conhecidos, como o fabuloso guitarrista Derek Bailey, que não precisa de apresentações, Hugh Davies, o principal mentor deste projecto, Jamie Muir que fez parte dos King Crimson, tendo gravado com a banda de Robert Fripp o álbum "Larks's Tongue in Aspic", Evan Parker que permanece a navegar nestas águas sempre com enorme sucesso e Christine Jeffrey que muitos de nós conhecemos das suas colaborações com Dave Liebman, ou seja tudo músicos que de uma forma ou de outra terminaram por se tornar nomes incontornáveis na área onde desenvolveram a sua Arte e digo-vos que escutar este trabalho discográfico é um desafio, mas também um desses pequenos prazeres inesquecíveis! Gravado nos dias 25, 26 e 27 de Agosto de 1970, no The Merstham Studios de Londres, por Jenny Thor e produzido por Manfred Eicher. O design do álbum pertence à dupla B & B Wojirsch, com fotografia de Werner Bethsold. Christine Jeffrey surge apenas nos temas “Third Stream Boogaloo” e “Untitled No.II”.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Cinema Europa


Tenho de confessar que tenho uma estima muito particular pelo Cinema Europa e já vão perceber porquê! Mas vamos primeiro aos factos ou seja o seu nascimento em 1930, quando a zona de Campo de Ourique até parecia estar na periferia da capital, sendo o seu responsável o Arquitecto Raul Martins, que também iria assinar o nascimento do famoso Jardim Cinema, tendo a sala do Cinema Europa uma plateia e um balcão, os quais irão desaparecer quando em 1958, ano da minha chegada a este Planeta vindo de Marte, foram efectuadas enormes alterações na sua estrutura pelo Arquitecto Carlos Antero Ferreira, criando o a célebre e sublime Plateia em rampa, que proporcionava ao espectador condições únicas de visibilidade para o écran, especialmente para aqueles que, como eu, tinham apenas um digito terrestre na idade.


Foi assim no Cinema Europa que descobri esse célebre comediante chamado Louis de Funés e “O Gendarme de Saint-Tropez” /  “Le Gendarme de Saint-Tropez”,  realizado por Jean Girault, tornando-me de imediato fan deste memorável actor francês. Mas seria também aqui que a minha mãe e avó e o senhor do bar do cinema perceberam que não valia a pena tentarem dar-me gato por lebre ou seja, durante a minha infância nunca fui menino de doces, mas gostava de um chocolate chamado “Candy-Bar”, mas já não havia nesse dia no bar do sinema e se não havia, também não queria outro. Então estes três amáveis adultos tentaram “oferecer-me” um outro doce, mas mantive-me firma na recusa e foi a minha mãe que comeu o chocolate que o cavalheiro lhe recomendou e depois lá fomos continuar a ver “Les Charlots”!


Les Charlots eram os Malucos, um grupo de jovens franceses que só faziam asneiras, sendo um dos actores o português Luís Rego, que sempre trabalhou em França e que ainda recentemente vimos num dos episódios da série “Candice Renoir”, esta troupe que andou nas salas de cinema na década de setenta teve enorme sucesso nas bilheteiras, incluindo no nosso país, mas hoje neste século amnésico, quem se lembra deles? Possivelmente só um executivo de um Estúdio de Hollywood para lhes copiar os gags!


Um dos filmes mais marcantes que vi no Cinema Europa foi “As Sandálias do Pescador” / “The Shoes of The Fisherman” de Michael Andersen, em que aprendi que o mundo estava dividido por um muro e um dia um homem oriundo desse outro lado chamado Kiril Pavlovich Lakota, um simples Arcebispo, iria chegar a Papa, embora na realidade ele se chamasse Antonio Rudolfo Oaxaca Quinn, fosse mexicano e se tornasse célebre em Hollywood com o nome de Anthony Quinn e nos meios mais populares, com o cognome de Zorba, o Grego! Este filme que me marcou bastante, contava também com o célebre “Fugitivo” da série de televisão, conhecido por David Janssen, e abriu-me os horizontes. No domingo seguinte, na Catequese depois da Missa, a professora desistiu de tentar responder às minhas perguntas e disse para eu falar com a minha avó, que ela sabia as respostas às minhas perguntasJ!


Quem me conhece, sabe que tenho uma profunda admiração pelo cinema francês e pela cultura francesa, especialmente no que diz respeito ao Cinema, Literatura e Belas-Artes, porque podemos continuar a ver o Jean-Paul Belmondo a fumar aqueles cigarros todos no “Acossado” de Godard e não temos as pistolas no “E.T.” de Spielberg a serem substituídas por telemóveis. Mas vamos ao que interessa ou seja essa bela película intitulada “A Solteirona” / “La vieille fille” de Jean-Pierre Blanc, com a Anne Girardot, a Marthe Keller, a Edith Scob e a Maria Schneider, porque neste filme o cinema e a vida respiram pelos fotogramas e aqui já começava a cultivar essa estranha “coisa” hoje em dia tão fora de moda que é a cinefilia.

O Cinema Europa foi uma das minhas salas favoritas, com a sua plateia em rampa, possivelmente já perceberam que não sou fan de balções, mas se gostava tanto de ir ao cinema Europa, porque andava na Manuel da Maia, no Ciclo Preparatório, também foi aqui que cometi esse pecado, pela primeira vez, tantas vezes repetido, nos meus tempos de estudante, de faltar às aulas para ir ao cinemaJ!


Nessa tarde só tinha duas aulas e então decidi ir conhecer o deserto. ou melhor ir ver o “Lawrence da Arábia” / “Lawrence of Arabia” de David Lean, mas como só tinha entrado nos dois dígitos da idade terrestre à pouco tempo, não percebi como esse filme iria ser longo e assim, quando aqueles árabes todos começaram a decidir a divisão do Médio-Oriente, sentados a uma mesa com todos a discutirem e sem ninguém se entender (discussão essa que continua nos dias de hoje, sem fim à vista), comecei a olhar para as horas e desde esse momento até terminar o filme tinha dois “écrans” no meu ângulo de visão: o da tela e o do relógio! E quando o filme terminou, saí disparado da sala, conseguindo descer a Calçada da Estrela mais depressa que o 28 da Carris e quando cheguei a casa a minha avó disse:
- Vens cansado Rui, por onde andaste?
- Decidi vir a pé pelo Jardim da Estrela e só depois reparei nas horas.
No dia seguinte a minha avó deu-me o bilhete do cinema que tinha esquecido no bolso das calças e recomendou-me que nada dissesse à minha mãe…


O magnífico Cinema Europa fechou as portas como Templo da Sétima Arte em 1981, foi transformado em Estúdio de gravação de televisão e recentemente viu nascer ali uma Biblioteca, fazendo parte da rede de Bibliotecas Municipais… espero que não se esqueçam dos livros de cinemaJ!

Claude Monet - "La Charrette, Route sous la neige à Honfleur avec la ferme Saint-Siméon"


Claude Monet
"La Charrette, Route sous la neige à Honfleur
avec la ferme Saint-Siméon", 1865.
Óleo sobre tela,  65 x 92,5 cm.
Museu d'Orsay, Paris.

Barre Phillips - “Journal Violone II”



Barre Phillips
“Journal Violone II”
ECM Records

Barre Phillips – Bass.
John Surman – Soprano Saxophone, Baritone Saxophone, Bass Clarinet, Synthesizer.
Anna Kemanis – Voice.

1 – Part I – 7:03
2 – Part II – 6:18
3 – Part III – 5:02
4 – Part IV – 6:45
5 – Part V (To Aquirax Aida) – 3:27
6 – Part VI – 11:03

Duração: 39:47
Ano: 1980
Edição: LP/CD

O álbum “Journal Violone” (o primeiro volume) foi gravado em Novembro de 1968, em solo absoluto por Barre Phillips, encontrando-se dividido em duas partes, sendo o local escolhido para a gravação a Parishs Church of St. James’Norlands, tendo surgido no mercado discográfico com o selo da etiqueta “Opus One”, encontrando-se apenas disponível no formato de vinil. Uma década depois já com um produtor como Manfred Eicher a cuidar do seu trabalho discográfico, Barre Phillips atira-se à aventura de gravar o segundo volume deste Diário, com excelentes resultados. Será sempre curioso numa audição compararem os dois álbuns e verificarem a evolução da escrita musical de Barre Phillips. Gravado em Junho de 1979 no Tonstudio Bauer, Ludwigsburg, por Martin Wieland. Layout de Barbara Wojirsch. Pintura reproduzida na capa: “Les Violoncelleux” – R. Balestra. Fotografia de Gérard Ansellem. Produção de Manfred Eicher. Todos os temas foram compostos por Barre Phillips.