terça-feira, 23 de maio de 2017

Richard Brooks – “O Homem das Lentes Mortais” / “Wrong is Right”


Richard Brooks – “O Homem das Lentes Mortais” / “Wrong is Right”
(EUA – 1982) – (117 min. / Cor)
Sean Connery, George Grizzard, Robert Conrad, Katharne Ross, John Saxon, Henry Silva, Leslie Nielsen.

E a ficção tornou-se realidade… assim poderia terminar esta crónica de cinema sobre a película de Richard Brooks, “Wrong is Right”, mas optámos por inserir a frase no início porque o que está aqui em jogo é precisamente o poder dos “Media” e a sua manipulação pelos políticos, embora também seja possível ver este filme como inspiração de factos ocorridos duas décadas depois.
Vamos buscar a cinéfilia para concretizar melhor este ponto de vista, quando Barry Levinson, no intervalo das filmagens de “A Esfera” / “Sphere”, devido à longa produção dos efeitos especiais, decidiu levar ao écran um argumento do fabuloso David Mamet intitulado “Manobras na Casa Branca” / “Wag the Dog”, nunca pensando que uma história muito idêntica estivesse a decorrer no maior dos segredos nessa mesma Casa Branca, como os acontecimentos posteriores vieram a demonstrar.
Ora o que sucede com o filme de Richard Brooks é que antecipa a História em duas décadas. Como sabemos, após os ataques do 11 de Setembro em New York, foram criadas as condições para desencadear uma guerra, tendo como pretexto a existência de armas de destruição maciça em mãos erradas, tudo por causa da riqueza do petróleo. Se virmos bem, é disso mesmo que trata “Wrong is Right”.


 “O Homem das Lentes Mortais” faz assim história, quase um quarto de século depois da sua estreia nos écrans. Na época em que o vimos pela primeira vez em Lisboa, no saudoso cinema Monumental, foi com enorme prazer que encontrámos Sean Connery na figura do destemido jornalista Patrick Hale, sempre acompanhado da sua câmara de filmar, essa câmara de lentes mortais que tudo fixa e tudo transmite, sempre ao “serviço da verdade jornalística”.
Richard Brooks, como um profeta, mostra-nos aquela que será a televisão do século XXI, com os seus “reality shows”, onde se confessam “crimes não cometidos”, desde a mulher que deseja matar o marido, a filha que pretende aniquilar a mãe, desejos esses que o pequeno écran irá servir ao espectador como uma espécie de terapia, ao mesmo tempo que os seus protagonistas atingem esses 15 minutos de fama de que tanto falou Andy Wahrol.


Mas se para muitos, incluindo o próprio Patrick Hale (Sean Connery), o jornalismo representa o “Quarto Poder”, iremos verificar como este poder é tão frágil que consegue ser usado e manipulado para proveito dos mais poderosos, porque aqui não há regras do jogo, porque a partida está viciada desde o início, todas as cartas estão marcadas.
Partindo do livro “The Better Angels” de Charles McCarry, o argumento que Richard Brooks escreveu a duas mãos com o escritor oferece-nos a criação/existência dos homens bombas, numa célebre antecipação dos bombistas suicidas que proliferam pelo mundo inteiro, só que nesta ficção o objectivo é chamar a atenção para a sua luta e não de provocarem o maior número de vítimas inocentes como sucede nos dias de hoje nos atentados terroristas.
Temos assim o jornalista Patrick Hale, que se movimenta muito bem nos corredores do poder, tanto na Casa Branca como no Médio-Oriente, entrando por sua própria iniciativa na rede de espionagem mantida por americanos e israelitas, onde não faltam os inevitáveis vendedores de armas (o negócio gere milhões) e aqui vamos encontrar essa estrela chamada Katherine Ross (a miúda da época, para alguns cinéfilos) envolvida em redes incontroláveis, porque nunca se sabe quem está a manipular os acontecimentos.


Repare-se na forma como nos é apresentado o Presidente Lockwood (George Grenville), que nos faz recordar uma certa pessoa, desde os seus discursos até à forma de se comportar perante os “média”, usando sempre as reportagens contundentes de Patrick Hale (Sean Connery) “para levar a água ao seu moinho”, enquanto por outro lado o jornalista vai transmitindo aos espectadores a informação mais credível sobre o desenrolar dos acontecimentos sempre em “prime-time” para manter o “share” das audiências e assim aumentar as receitas da publicidade.
A forma como é montada toda a intriga, assim como os métodos da contra-informação, levam-nos a pensar até que ponto não somos manipulados neste século xxi, diariamente, pela informação que consumimos, porque cada vez mais o que se publica não é a verdade dos factos, mas sim as notícias que conseguem angariar as maiores receitas: morte, crime, destruição, guerra.
Recorde-se que na panóplia de imagens televisivas com que se inicia o filme “Wrong is Right” / “O Homem das Lentes Mortais” está lá essa maravilhosa publicidade para nos ajudar a viver no melhor dos universos, porque neste Admirável Mundo Novo cada vez mais se vai copiar o pior da história do passado, para se criar a história do presente..

 Sean Connery num filme incontornável 
de Richard Brooks!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Passions and Desires – An ECM Records Blog’s Fan.



Foi em meados da década de setenta do seculo xx que descobri a música da editora ECM Records – European Contemporary Music e desde então, ao longo de quarenta anos, descobri um dos mais belos universos musicais da História da Música, graças a esse produtor e nome incontornável da editora alemã, chamado Manfred Eicher que, primeiro em vinil e depois no formato de cd, nos ofereceu gravações de uma qualidade muito acima da média e sempre com um design das capas dos álbuns de uma beleza deslumbrante.

aqui vos falei do produtor Manfred Eicher e da sua editora ECM Records e por diversas vezes ofereci a minha opinião aqui sobre as suas edições discográficas, algo que irei continuar a fazer sempre que possível no blog “Manuscritos da Galaxia” mas, como fan, decidi criar um blog intitulado “Passions and Desires” de divulgação da música da ECM Records, de forma cronológica, a fim de permitir um olhar diferente sobre a editora de Munique, para quem a música não possui fronteiras, mas apenas a beleza das suas sonoridades, criando assim a mais bela música depois do silêncio. Aqui vos deixo o convite para visitarem o blog “Passions and Desires” (click no título do blogue).


Desejo a todos uma boa semana!

domingo, 21 de maio de 2017

James Cameron – “Titanic”


James Cameron – “Titanic”
(EUA – 1997) – (194 min. / Cor)
Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Billy Zane, Kathy Bates, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bill Paxton, David Warner.

Goste-se ou não de “blockbusters”, temos de reconhecer a grandeza de “Titanic” de James Cameron, cujos custos de produção ultrapassaram os 200 milhões de dollars, mas que foram largamente ultrapassados pelas receitas do filme, ao mesmo tempo que conquistava onze Oscars da Academia, um feito apenas atingido por “Ben-Hur” e certamente ainda estamos recordados do grito do realizador na entrega da famosa estatueta, na noite dos Oscars: “sou o rei do universo”.
Na realidade “Titanic” ultrapassou todas as expectativas, depois de uma rodagem repleta de problemas, mas ao vermos o resultado final, só podemos “tirar o chapéu” à genialidade do cineasta, que nos narra em simultâneo a “love story” entre Jack Dawson (Leonardo DiCaprio) e Rose Dewitt (Kate Winslet), membros de classes sociais bem distintas, ao mesmo tempo que nos oferece a tragédia do célebre navio, que foi ao fundo após colidir com um iceberg.


Na cerimónia dos Oscars, ao contrário do que se pensava, os dois protagonistas ficaram fora dos prémios, tendo até DiCaprio nem sequer sido nomeado, o que se revelou uma profunda injustiça, como todos sabemos. E hoje ninguém coloca em dúvida o valor que ambos representam no universo cinematográfico, assim como as suas excelentes interpretações no filme contribuíram para o enorme sucesso da película.
A forma como James Cameron nos coloca no interior do navio, em que as classes sociais a bordo ocupam lugares bem distintos, e nos narra o encontro dos dois protagonistas e os sonhos de ambos, rumo à terra prometida, prendem o espectador.
Embora todos conheçamos a história do Titanic, a forma como nos é oferecido o afundamento do navio, graças aos superiores efeito especiais, conquistam de imediato a atenção do espectador, que de certa forma revive a tragédia.


Já o romance protagonizado por Jack Dawson (Leonardo DiCaprio) e Rose DeWitt (Kate Winslet), que se encontra noiva de Calefon Hockley (Billy Zane), cativou as plateias de todo o mundo, ao mesmo tempo que a banda sonora pontuava de forma decisiva todos os momentos do filme, incluindo o encontro dos amantes no convés do navio, onde a voz de Celine Dion se revelava única.

“Titanic” de James Cameron é um “blockbuster”, mas ninguém conseguiu ficar indiferente perante a genialidade demonstrada pelo cineasta ao realizar este filme.

sábado, 20 de maio de 2017

Ron Howard – “Cocoon – A Aventura dos Corais Perdidos” / “Cocoon”


Ron Howard – “Cocoon – A Aventura dos Corais Perdidos” / “Cocoon”
(EUA - 1985) – (108 min. / Cor)
Don Ameche, Brian Dennehy, Steve Guttenberg, Jessica Tandy, Tyrone Power Jr.

Não me recordo do Ron Howard nas séries de TV, mas lembro-me muito bem dele no filme de George Lucas "American Graffiti" / "Nova Geração", mas que título!!!!
Na verdade nunca poderemos esquecer que Ron é o responsável por aquela película intitulada "Far and Away" / "Horizonte Longínquo" em que Tom Cruise até consegue ressuscitar para viver ao lado da sua amada Nicole! Alguém aqui ao lado está-me a dizer que o Howard até já ganhou o Oscar com "A Beautiful Mind" / “Uma Mente Brilhante”, pois é verdade e Alfred Hitchcock nunca recebeu nenhum Oscar pela realização, mas adiante senão não falo ao que me trouxe até aqui. Ron Howad também é o responsável por aquele quarteto de “movies”, constituído pelo pouco conhecido "EdTV", que merece ser (re)visto à luz do nosso quotidiano; o remake de "Ransom" / "Resgate" com um Mel Gibson em boa forma; o já esquecido "Apollo 13" (porque será que não ficou na memória de ninguém?) e por fim aquele que é uma das suas películas mais interessantes, "The Paper" / "Primeira Página", com um elenco maravilha constituído por Michael Keaton, Glen Close, Robert  Duvall e Marisa Tomei e mais uma vez este palavreado todo para chegarmos a "Cocoon".


Ron Howard, em "Cocoon", relata-nos a história de extraterrestres (os antigos senhores de Atlântida) que regressam ao planeta Terra para virem buscar aqueles que não partiram dez mil anos antes. Evidentemente que este regresso implica o inevitável romance entre dois seres de sistemas diferentes (*), ao mesmo tempo que instaura indirectamente o rejuvenescimento nos habitantes de um lar para a terceira idade, terminando todos por partir para a eternidade.
Ao vermos "Cocoon", a memória recorda-se dos "movies" de Steven Spielberg "Encontros Imediatos de Terceiro Grau." / “Close Encounters of the Third Kind”, "E.T – O Extra-Terrestre" / “E.T. the Extra-Terrestrial” e o episódio para "No Limiar da Realidade" / “Twilight Zone” e verificamos que as situações mágicas oferecidas por Ron Howard em "Cocoon" já tinham sido encenadas cinematograficamente. No entanto a magia de Steven Spielberg reside na memória da ficção científica/terror dos anos 40/50, da qual ele é um dos herdeiros.


Um actor extraordinário chamado Brian Dennehy

De qualquer forma, "Cocoon" oferece-nos imagens, com a ajuda preciosa da "Light & Magic" de George Lucas , que dificilmente esqueceremos e Ron Howard assina nesta obra um dos seus melhores trabalhos a par de "Mar de Chamas" / “Backdraft”.
"Cocoon – A Aventura dos Corais Perdidos" obteve um Oscar para os melhores efeitos visuais e Don Ameche recebeu a estatueta para o melhor actor secundário, reconhecimento da sua longa carreira ao serviço da Sétima Arte.
"Cocoon" é um filme para todas as gerações e merece, sem dúvida, uma nova visita de todos nós!

(*) Ah! Se Hollywood tivesse permitido esse romance proibido do "Planeta dos Macacos", mas o Tim Burton lá deixou a sequência "perdida" na sala de montagem.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Budd Boetticher – “Têmpera de Herói” / “Buchanan Rides Alone”


Budd Boetticher – “Têmpera de Herói” / “Buchanan Rides Alone”
(EUA – 1958) – (78 min. / Cor)
Randolph Scott, Craig Steven, Barry Kelly, Tol Avery, Peter Kelly.

Budd Boetticher nasceu em Chicago em 1916 e ao contrário do que sucede geralmente, não teve como primeira profissão um trabalho na Sétima Arte, mas sim toureiro no México, percebendo-se assim o seu desejo, quando já tinha abraçado a profissão de cineasta, de realizar a película “Azzuza”, sobre a vida e a arte de um dos mais célebres toureiros mexicanos.
E se John Ford nos ofereceu esse actor chamado John Wayne nos seus “westerns”, já Budd Boetticher elegeu como seu alter-ego o actor Randolph Scott, que protagonizou inúmeros “westerns”, um género no qual o cineasta investiu todo o seu saber, embora também tenha abordado o filme de gangsters de forma sublime, em “The Raise and Fall of Legs Diamond”.


Em “Tempera de Herói” / “Buchanan Rides Alone”, mais uma vez iremos descobrir Randolph Scott no protagonista, numa história em que iremos conhecer Tom Buchanan, um homem pacífico e honesto, que apenas pretende regressar ao Texas, depois de ter andado pelo Oeste ao longo dos anos, conduzindo manadas, embora também tenha dado o seu contributo ao lado das forças revolucionária mexicanas, mas como a revolução terminou, ele decidiu regressar à terra que o viu nascer para construir uma nova vida, levando consigo a bela quantia de dois mil dollars, que foi amealhando ao longo dos anos. Mas ao pernoitar numa cidade controlada pela família Agry, irá ver-se metido em apuros.


Budd Boetticher oferece-nos aqui a imagem de um pacífico cow-boy que até sabe manejar a arma, mas que é bem diferente de todos aqueles que nos foram oferecidos nos “westerns”, porque não temos aqui o pistoleiro, já que Tom Buchanan por diversas vezes é derrotado, ficando até sem as economias de uma vida. No entanto o destino irá sorrir-lhe no final.
O cineasta demonstra em “Tempera de Herói” / “Buchanan Rides Alone” como uma cidade cai facilmente sobra a alçada de uma família: os Agry dominam o comércio e a lei, perante a passividade de uma população aterrorizada.


Apesar de ser feito com meios bastante reduzidos, este filme de Budd Boetticher revela-se uma obra sóbria, elaborada de acordo com as regras, oferecendo-nos uma vez mais a famosa luta do cow-boy solitário contra a prepotência dos poderosos, terminando o primeiro por sair vitorioso.

“Buchanan Rides Alone” / “Tempera de Herói” surge assim como uma película bem demonstrativa da capacidade de magia do “western” no interior da Série-B.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Paul Thomas Anderson – “Magnolia”


Paul Thomas Anderson – “Magnolia”
(EUA – 1999) – (188 min. / Cor)
Julianne Moore, William H. Macy, John C. Reilly, Tom Cruise, Philip Baker Hall, Jason Robards, Philip Seymour Hoffman, Alfred Molina.      

“Magnólia”, do cineasta Paul Thomas Anderson, é uma película em estrutura de mosaico, que nos vai relatar a vida de um conjunto de pessoas ligadas entre si por laços familiares, mas também por simples coincidências, no período temporal de um dia, nessa grande metrópole que é Los Angeles, ao mesmo tempo que iremos conhecer como as esperanças de muitos dos protagonistas se transformaram em verdadeiros fracassos.
Por aqui assistimos a um retrato feroz da sociedade contemporânea, em que mesmo as boas intenções irão embater nesse muro intransponível da dura realidade.


Earl Partridge (Jason Robards) é um magnata que se encontra retido no leito, às portas da morte e apesar de todo o amor que a sua segunda mulher Linda Partridge (Julianne Moore) lhe dedica, compartilhando o seu sofrimento, não irá alterar o seu inevitável destino. Já o seu filho Frank Mackey (Tom Cruise, numa interpretação extraordinária, bem merecedora do Oscar) é uma espécie de sexólogo-evangelista, profundamente misógino, que olha o universo feminino com profundo desprezo. Por sua vez Donnie Smith (William H. Macy) fora na infância uma criança cujo futuro radioso se encontrava ao virar da esquina, mas que por ele foi hipotecado ao longo dos anos, tornando-se num desses derrotados da sociedade, que caminham cabisbaixos pelas artérias das grandes cidades. Já o famoso apresentador de televisão Earl Partridge (Philip Baker Hall) encontra-se também ele no final dos seus dias.


A vida e a dor das personagens criadas por Paul Thomas Anderson, que também assina o argumento, surgem aqui como o espelho de uma sociedade imperfeita, sem rumo e sem glória, à beira do apocalipse, ao mesmo tempo que percebemos como as coincidências nos transportam para o interior e o conhecimento de outras vidas, tornando-nos de certa forma ligados ao seu destino, como sucede com o enfermeiro Phil Parma (Philip Seymour Hoffman). E quando assistimos ao encontro de Frank Mackey (Tom Cruise) com o pai, Earl Partridge (Jason Robards) no seu leito da morte, iremos descobrir uma das muitas referências bíblicas que navegam pelo interior da película.


“Magnólia”, do cineasta/argumentista Paul Thomas Anderson, revela-se como um verdadeiro murro no estômago na sociedade contemporânea, retratando-a de forma exemplar, partindo do chamado núcleo familiar, estendendo depois a sua teia em todas as direcções, fruto dessas simples e estranhas coincidências, transformadoras desse quotidiano contemporâneo em que todos habitamos.